Agosto 2019

Design

DESIGN

Estúdio Rain 

Entrevista com Ricardo Innecco

"Nosso processo criativo não é linear, mas geralmente começa a partir do estudo de um material."

A entrevista mostra um pouco do trabalho minucioso e investigativo do Estúdio Rain transparecendo originalidade em suas peças. Agradecemos ao Ricardo Inneco e a Mariana Ramos pelas palavras e o texto enriquecedor repleto de boas referências e conteúdo. 

"RAIN é formado por Ricardo Innecco e Mariana Ramos, respectivamente arquiteto e designer de produto. Nasceram e estudaram em Brasília, cidade conhecida por sua arquitetura e urbanismo modernistas. Mudaram-se para São Paulo em 2012 onde atuaram em importantes estúdios de arquitetura e design. Em 2015 passam a trabalhar em colaboração sob o nome RAIN."

Como o Estudio Rain vem se destacando no cenário atual?

O estúdio tem se destacado devido à sua busca por uma linguagem própria.

O que inspira o trabalho do estúdio e quais são as suas referências?

Nos inspiramos em diversas áreas, não nos prendendo apenas ao universo do design. O trabalho de arquitetos, artistas e artesãos tem muita influencia sobre nós. Podemos destacar o trabalho de 3 profissionais que admiramos e que são uma grande fonte de inspiração para nós: Isamu Noguchi [1] é um artista cujo trabalho chama muito nossa atenção. Sua atuação expressiva em tantas áreas artísticas, para além da própria arte, como a arquitetura, o design, o paisagismo, a cenografia, o land art faz o trabalho dele muito rico e uma fonte farta de referências e para estudo. A obra do Noguchi tem unidade e uma identidade bem forte. Nos inspira ver o tratamento que ele dá aos materiais, a capacidade de transitar entre os diversos campos artísticos com tanta liberdade e sem abrir mão de sua linguagem. A coerência na expressão dá muita força para obra dele. Também nos seduz as formas orgânicas, serenas e potentes do seu trabalho; a conjunção e a relação entre os materiais que ele usa. Vemos uma simplicidade e uma objetividade em sua obra que são fruto de uma considerável sintetização formal e que alcançam um certo silêncio poético. Admiramos muito o trabalho da ceramista Ruth Duckworth [2] que dá um tratamento muito particular para a cerâmica. A obra dela é carregada de formas orgânicas e abstratas inspiradas na natureza e no corpo humano. Além disso, ela cria elementos bidimensionais, por vezes com chapas muito finas e delicadas e cria interações inesperadas entre os elementos de suas obras. Isso nos interessa porque é uma abordagem original pra tratar esse material, que usualmente é trabalhado de forma tridimensional. Suas peças são sutis e precisas e aparentam muita fragilidade. Isso gera certa tensão na percepção delas e também dá força para as obras. Nos interessamos pelo modo escultórico que ela trabalha suas peças e pela forma original de manipular o material. Gostamos do trabalho do escritório de arquitetura Aires Mateus [3], principalmente dos projetos residenciais. Também gostamos muito dos interiores destes projetos, que são importantes referências para estudarmos a ocupação de ambientes, que são um dos nossos objetos de trabalho. A forma como ambientam as áreas internas é objetiva, precisa e essencial. O uso que fazem de materiais orgânicos e naturais nos encanta. Seus trabalhos têm muito branco, espaços vazios, respiro. Essa conjunção sugere calma e essa calma nos atrai. Nada parece sobrar. Nos identificamos com essa abordagem. Há um projeto deles, em especial, que adoramos: a Casa no Tempo. É um projeto sublime: uma casa bucólica, concisa e tão sedutora. A ambientação interna também é impecável. Precisa e igualmente encantadora. Tanto o trabalho do Noguchi quanto da Duckworth nos inspira pelas formas orgânicas, uma característica muito presente nos nossos trabalhos. Acreditamos que ambos têm muito em comum no tratamento que dão aos materiais que trabalham, na criação de relações particulares entre os elementos de uma obra e, principalmente na abordagem própria que desenvolveram. Estamos sempre buscando isso no nosso trabalho: desenhos originais e maneiras novas de trabalhar os materiais. Já o trabalho do escritório Aires Mateus é um objeto de estudo e uma grande fonte inspiração na forma como os espaços internos são tratados: com vazios, calma, sutileza e naturalidade.

Podem contar um pouco sobre o processo criativo e o desenvolvimento da peça até sua execução?

Nosso processo criativo não é linear, mas geralmente começa a partir do estudo de um material. Buscamos nos aprofundar em relação a história e possibilidades de cada material antes de começar um projeto. Depois procuramos o produtor que tenha melhor habilidade com este material e começamos a fase de protótipo.

Como vocês se expressão artisticamente através das peças que criam?

Nossa expressão artística esta na nossa criação. Tentamos sempre conjugar nosso desejo de criar com as exigências do projeto. No design a criação artística sempre estará sujeita à função, sendo difícil falar que um trabalho é totalmente artístico pois temos este fator envolvido. Temos algumas áreas de atuação dentro do estúdio, podendo destacar duas principais: edições abertas e edições limitadas. Nas nossas séries limitadas temos maior liberdade de criação, e buscamos experimentar mais, com materiais, tipologias, etc. As séries abertas tendem a ser mais direcionadas, mas também carregam o nosso traço.

Qual a relação do trabalho do Estúdio Rain e a cultura minimalista?

Não buscamos nos adequar a nenhuma estética, e sim, ter liberdade de criação. Temos trabalhos com maior simplicidade de construção e outros com maior dificuldade de execução. Depende do mercado em que vamos atuar com o projeto. Existem projetos que precisam ser mais “industriais” e outros menos, como nossas séries limitadas.

Entrevista por: Murilo Mattiello Gabriele

Fotos: Marcos Mendes | Marcellus de Lemos | Rui Cardoso

Mobiliários: Babel, Swimming Pool Tables, Chains

Website: www.estudiorain.com.br

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© 2019 Estudio BG